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MEDVi e a carta da FDA: o que o perfil do New York Times deixou de fora

Foto de ArthurHidden no Freepik

A FDA emitiu uma carta de advertência à MEDVi em 20 de fevereiro de 2026. Seis semanas depois, em 2 de abril, o New York Times publicou um perfil da mesma empresa como o futuro dos negócios com inteligência artificial. A carta não aparece na matéria.

O que é a MEDVi

A MEDVi é uma empresa de telessaúde que vende semaglutida e tirzepatida manipuladas pela internet, os mesmos princípios ativos do Ozempic, do Wegovy, do Mounjaro e do Zepbound. É tocada pelos irmãos Matthew Gallagher, fundador e CEO, e Elliot Gallagher.

Segundo o New York Times, a operação tem dois funcionários em tempo integral, os dois irmãos, mais prestadores terceirizados. O jornal reporta que a empresa começou com US$ 20 mil e cerca de uma dúzia de ferramentas de IA, vendeu US$ 401 milhões em 2025, seu primeiro ano cheio, e projeta US$ 1,8 bilhão de receita em 2026. Os números vêm da própria empresa: não há balanço auditado público e nenhuma fonte independente verificou a receita.

Vale a distinção, porque a cobertura confundiu isso em vários lugares: o US$ 1,8 bilhão é projeção de receita, não avaliação de mercado. A MEDVi não captou capital externo e não tem valuation oficial. O número sólido da história é o de 2025.

O que a FDA escreveu na carta

A carta de advertência 721455-02202026, de 20 de fevereiro de 2026, está publicada no site da FDA e endereçada a "MEDVi, LLC dba MEDVi", 131 Continental Dr, Ste 305, Newark, DE 19713.

A agência cita o site medvi.io e alega duas coisas. A primeira: a MEDVi rotula semaglutida e tirzepatida manipuladas com a própria marca, o que sugere falsamente que a empresa é a manipuladora do produto. A segunda: o site usa as frases "Same active ingredient as Wegovy® and Ozempic®" e "Same active ingredient as Mounjaro® and Zepbound®", que implicam uma aprovação da FDA que esses produtos manipulados não têm.

O enquadramento é nas seções 502(a) e 502(bb) do Federal Food, Drug, and Cosmetic Act. O prazo de resposta é de 15 dias úteis, e a consequência declarada em caso de descumprimento é apreensão e liminar.

Uma carta de advertência não é multa, condenação nem punição. É a FDA escrevendo por escrito o que considera irregular e pedindo resposta.

O que já estava público antes do perfil

Este é o dado mais forte da história, e não é o dinheiro nem os dois funcionários. É o calendário.

Em maio de 2025, quase um ano antes do perfil, a Futurism publicou uma investigação sobre as fotos de antes e depois usadas pela MEDVi como resultados de pacientes. Segundo a revista, eram imagens reais de transformação tiradas de fóruns de emagrecimento do Reddit, passadas por uma ferramenta de troca de rosto e publicadas como pacientes da empresa. Os mesmos nomes, "Melissa C", "Sandra K", "Michael P", reaparecem associados a pessoas diferentes. A Futurism também reportou que um médico apresentado como parceiro disse não ter nenhuma ligação com a empresa.

A Business Insider apurou mais de 800 páginas de Facebook se passando por médicos individuais anunciando produtos da MEDVi. As fotos de perfil traziam marcas de geração por IA, incluindo marca d'água do Gemini e texto ilegível. Entre os exemplos: "Dr. Robert Whitworth", com endereço inexistente, "Dr. Spencer Langford MD", vinculado a uma página de loja de roupas na República do Congo, "Professor Albust Dongledore" e "Dr. Richard Hörzgock". Uma busca na biblioteca de anúncios da Meta por "medvi" em 3 de abril de 2026 retornou mais de 5.000 anúncios ativos, número que caiu para cerca de 2.800 em 6 de abril, depois da repercussão. São grandezas diferentes: páginas de um lado, anúncios do outro.

Em 20 de março de 2026, a MEDVi virou ré na ação coletiva James v. Medvi LLC, no Tribunal Distrital Federal para o Distrito Central da Califórnia. A petição, reportada por Techdirt e Drug Discovery & Development, acusa afiliados da empresa de disparar mais de 100 mil e-mails de spam por ano com cabeçalhos falsificados, domínios spoofados e endereços de envio sem sentido para escapar de filtros, com assuntos do tipo "This might be the easiest way to start Ozempic". O pedido é de US$ 1.000 por e-mail, com base na lei antispam da Califórnia, e a classe é estimada em pelo menos 100 mil pessoas. O caso está em fase inicial, sem nenhuma decisão de mérito.

E o próprio site da MEDVi traz, em letras miúdas, este aviso: "Individuals appearing in advertisements may be actors or AI portraying doctors and are not licensed medical professionals." As apurações registram que esse aviso não aparecia nas páginas de Facebook dos médicos falsos, só no site.

O que a empresa responde

Gallagher reconhece usar IA em código, texto do site, imagens, vídeos e atendimento ao cliente. Diz que "talvez 30%" da publicidade sai por afiliados, que retratar médicos em anúncio é prática antiga do setor e que o site traz os avisos devidos. Equipara os médicos gerados por IA a uso de banco de imagens.

Sobre a FDA, a empresa declarou em 8 de abril de 2026 que o site citado na carta, medvi.io, pertencia a uma agência de marketing de afiliados que operava sem permissão, que o domínio principal é medvi.org, e que a MEDVi "never received a letter from the FDA". Gallagher disse ainda que a questão já foi resolvida.

O contraponto é documental e dispensa adjetivo: a carta está endereçada a "MEDVi, LLC dba MEDVi", no endereço corporativo da empresa em Delaware, e não a nenhum afiliado. As alegações são sobre produtos com a marca MEDVi.

O que o New York Times fez depois

Após a repercussão, o jornal alterou a matéria e publicou uma nota: "After this article was published, many readers noted that Medvi was facing legal and regulatory actions for its business practices. Our piece should have included that information to give readers a fuller picture of the scrutiny that the company was facing."

O texto da nota vem da cobertura da Futurism e do Techdirt. Não consultei a versão arquivada original.

O que ainda não dá para afirmar

Não sei se a MEDVi respondeu formalmente à FDA dentro dos 15 dias úteis, nem qual foi o desfecho. A afirmação de Gallagher de que já foi resolvido não tem confirmação da agência, e não localizei registro de apreensão, liminar ou close-out letter.

Também não está estabelecido quem criou as mais de 800 páginas de médicos: Gallagher atribui a afiliados, e as apurações não determinam a autoria. Não se sabe se a queda de 5.000 para 2.800 anúncios foi ação da Meta, dos afiliados ou da própria empresa, quantos pacientes foram efetivamente prejudicados, nem qual foi o andamento da ação coletiva depois de abril de 2026.

O que sobra é o calendário, e ele já basta. A Futurism expôs as fotos fabricadas em maio de 2025. A FDA escreveu em fevereiro de 2026. A ação coletiva foi ajuizada em março. O perfil elogioso saiu em abril. Nada disso foi descoberto depois: estava tudo publicado antes de a matéria sair.