Por que a China mandou a Meta desfazer a compra da Manus

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A China mandou a Meta desfazer a compra da Manus sem explicar por quê. A decisão, publicada em 27 de abril de 2026 pelo órgão chinês de revisão de segurança de investimento estrangeiro, tem uma frase: proíbe a aquisição do "projeto Manus" e exige que "as partes envolvidas retirem a transação de aquisição". Não há justificativa no texto. O que se sabe do motivo são leituras de analistas e fontes anônimas, e nenhuma delas é oficial.
Do lado de fora, a sequência é esta: a Meta anunciou a compra em 29 de dezembro de 2025. Dez dias depois, o governo chinês disse que ia investigar. Quatro meses depois, proibiu. Oito meses depois, em 1º de setembro de 2026, a Manus anunciou que voltou a operar como empresa independente.
O que é a Manus e o que a Meta comprou
A Manus é uma startup de agentes de inteligência artificial, operada pela empresa Butterfly Effect. Foi fundada em 2022, em Pequim, por Xiao Hong. Em meados de 2025, depois de uma rodada Série B em abril, a empresa mudou a sede para Singapura. Segundo a imprensa, cerca de 40 técnicos foram transferidos e cerca de 80 funcionários na China foram demitidos nessa mudança.
Em 29 de dezembro de 2025, a Manus publicou no blog oficial o post "Manus Joins Meta for Next Era of Innovation", e a CNBC noticiou no dia seguinte que a Meta havia adquirido a empresa. O preço nunca foi divulgado pela Meta. O Wall Street Journal e a Bloomberg apuraram algo em torno de US$ 2 bilhões; outras apurações falam em US$ 2 a 3 bilhões.
Um detalhe do acordo importa para o resto da história. Segundo o TechCrunch, a Meta se comprometeu, na compra, a encerrar os serviços e operações da Manus na China e a não manter nenhuma participação chinesa remanescente. Não foi suficiente.
Como a China reagiu
Em 8 de janeiro de 2026, o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) foi perguntado sobre a compra em coletiva de imprensa pelo South China Morning Post. O porta-voz He Yadong respondeu que o ministério faria, junto com outros órgãos, uma avaliação e investigação sobre a conformidade da operação com as regras de controle de exportação, de importação e exportação de tecnologia e de investimento no exterior. E lembrou que empresas que fazem "outbound investment, technology exports, cross-border data transfers, and cross-border mergers and acquisitions" devem cumprir as leis chinesas.
Em março de 2026, segundo o Financial Times, os cofundadores Xiao Hong, CEO, e Ji Yichao, cientista-chefe, foram chamados a uma reunião com a NDRC, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, em Pequim. Ainda segundo o FT, saíram de lá impedidos de deixar a China continental. Podiam circular dentro do país, não viajar ao exterior. Nem a China, nem a Meta, nem a Manus confirmaram essa apuração. Em agosto, o FT reportou que os reguladores planejavam suspender a proibição de viagem e que Xiao Hong tinha dito à equipe que voltaria de Pequim a Singapura. Não encontrei confirmação de que a suspensão aconteceu.
Em 27 de abril de 2026 veio a ordem. O Escritório do Mecanismo de Trabalho para Revisão de Segurança de Investimento Estrangeiro, vinculado à NDRC, proibiu a aquisição e mandou desfazer. A base legal são as Medidas de Revisão de Segurança de Investimento Estrangeiro, em vigor desde 18 de janeiro de 2021. É o primeiro veto público a uma compra no setor de IA sob essas medidas.
A Meta respondeu no mesmo dia, em declaração ao TechCrunch: "The transaction complied fully with applicable law. We anticipate an appropriate resolution to the inquiry."
Por que a sede em Singapura não protegeu o negócio
A decisão não explica, então a resposta honesta é que não se sabe. O que dá para observar é como o governo chinês tratou a empresa: a investigação de janeiro foi enquadrada em regras de investimento no exterior, exportação de tecnologia e fusões transfronteiriças, ou seja, regras que se aplicam a empresa chinesa. A mudança de sede para Singapura, feita meses antes, não tirou a Manus do alcance delas.
O problema de desfazer uma compra já feita
Quando a ordem chegou, a compra já tinha acontecido. Segundo a Bloomberg, a Meta havia integrado a Manus aos seus sistemas internos e, em junho de 2026, cortou o acesso da Manus e interrompeu o compartilhamento de dados para cumprir a decisão. A própria Meta, em abril, já falava da transação no passado. Análises jurídicas publicadas pela O'Melveny e na Lexology classificam o caso como o primeiro desfazimento de um negócio já consumado sob o mecanismo chinês.
Enquanto a Meta desligava, outro comprador negociava. Segundo o The Information e o Financial Times, um consórcio liderado pela Tencent, com a ZhenFund e a HSG, a antiga Sequoia China, negociava recomprar a participação da Meta pelos mesmos cerca de US$ 2 bilhões, levantando cerca de US$ 1 bilhão. A Tencent seria a maior acionista, mas minoritária. Nem Tencent, nem Meta, nem Manus confirmaram. Ninguém anunciou o fechamento.
O que aconteceu com os dados dos usuários
Em 11 de agosto de 2026, a Manus publicou "A Note to Our Users". A nota diz que a empresa voltaria em breve a operar como companhia independente e que, "to comply with regulatory requirements in specific jurisdictions", dados gerados por certos usuários a partir de 29 de dezembro de 2025 seriam apagados. A nota não diz quais jurisdições nem quantos usuários.
Quem apagou foi a Manus, por decisão própria, e a nota não nomeia a China. A janela de exclusão foi das 8h de 23 de agosto de 2026 até 24 de agosto, no horário de Singapura. Os usuários puderam fazer backup de 11 de agosto até 7h59 de 23 de agosto, e um portal de restauração foi aberto às 8h de 25 de agosto.
A data de corte, 29 de dezembro de 2025, é o dia em que a Meta anunciou a compra. As duas datas estão nas fontes primárias. O que a coincidência significa, a Manus não disse.
De quem é a Manus agora
Em 1º de setembro de 2026, a Manus publicou "Manus Resumes Independent Operations". O post apresenta a empresa como "an independent agent lab", com Xiao Hong, Zhang Tao e Ji Yichao à frente. Não informa quem são os acionistas depois da separação. A Meta não comentou nem o aviso de agosto nem a retomada de setembro.
O que ainda não se sabe
- O motivo oficial da proibição. A decisão não explica.
- O preço exato da compra. A Meta nunca divulgou.
- Se a recompra pela Tencent foi concluída e quem é dono da Manus hoje.
- Se a proibição de saída dos fundadores foi de fato suspensa.
- Quais jurisdições e quantos usuários tiveram dados apagados.
O que sobra confirmado é uma empresa que saiu de Pequim, foi comprada por uma das maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos, foi devolvida por ordem de uma frase e voltou a andar sozinha oito meses depois, sem dizer de quem é.


